uas praças, uma em frente à outra no centro de Aracaju, são retratos vivos de uma rivalidade política que marcou a história de Sergipe entre o final do século XIX e início do século XX. As estátuas erguidas parecem demarcar territórios, sob a presença permanente dos dois protagonistas desta disputa, que dão a elas os seus respectivos nomes. De um lado, está Fausto Cardoso, que foi advogado, filósofo e deputado federal. Do outro, está Olímpio Campos, monsenhor católico que também atuou como professor, deputado, senador e presidente (governador) do Estado (entre 1899 e 1902).
Nestas praças, também se localizam locais que serviram de cenário para as disputas políticas lideradas por eles, a exemplo do Palácio Provincial (atual Palácio-Museu Olímpio Campos), a antiga Assembleia Legislativa (atual Escola do Legislativo), a Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição (atual Catedral Metropolitana) e a própria praça em frente aos dois palácios, no qual aconteceu o episódio que serviu de ponto máximo para esta rivalidade: o assassinato de Fausto, em 28 de agosto de 1906. Menos de três meses depois, em 9 de novembro, Olímpio também foi morto, no Rio de Janeiro, por dois filhos e um primo do rival. Neste contexto, a Praça do Palácio passou a ser Fausto Cardoso, e a Praça da Matriz passou a ser Olímpio Campos.
As estátuas em homenagem a ambos foram instaladas e erguidas nos locais, respectivamente em 1911 e 1916, e embaixo delas foram sepultados os seus respectivos restos mortais, a poucos passos um do outro. “O conflito deixou sequelas duradouras, alimentando divisões partidárias e polarizações que influenciaram a política local por décadas. A escolha de batizar com seus nomes as praças centrais, situadas frente a frente, carrega um simbolismo irônico e eloquente: dois adversários históricos eternamente ‘olhando-se’ no coração da cidade”, define o professor Rony Rei do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Tiradentes (PPED/Unit).
O jornalista e historiador Luiz Antônio Barreto (1944-2012) definiu Fausto e Olímpio como dois dos mais influentes líderes políticos sergipanos do início do século passado, cujas trajetórias inicialmente próximas evoluíram para uma acirrada rivalidade motivada por divergências políticas e disputas de poder. “Para a memória política sergipana, Fausto Cardoso representa o idealismo e a postura combativa contra o poder estabelecido, enquanto Olímpio Campos simboliza a força de liderança e a manutenção de estruturas políticas tradicionais”, acrescenta Rony.
Fausto, nascido em 1864 na cidade de Divina Pastora, formou-se pela tradicional Faculdade de Direito do Recife (PE), onde foi aluno de Tobias Barreto (1839-1889). Em 1887, foi nomeado promotor público em Laranjeiras e passou a defender publicamente a causa republicana, através de artigos publicados em jornais e da atuação em partidos de tendência liberal. Um ano após a República, passa um tempo no Rio de Janeiro, então capital federal, trabalhando como advogado e jornalista.
Olímpio, por sua vez nascido no ano de 1853 em Itabaianinha, chegou a começar o curso de Direito no Recife, mas mudou de ideia e entrou para o Seminário São João Maria Vianney, em Salvador (BA), onde fez os estudos eclesiásticos e se habilitou para ser ordenado padre em 1877. Atuou como vigário nas paróquias de Itabaianinha, Vila Cristina (atual Cristinápolis) e Aracaju, até ser eleito deputado provincial, em 1882, e deputado geral em 1886. Aproximou-se do então presidente de Sergipe, Felisbelo Freire, e chegou a ser nomeado intendente (prefeito) da capital, em 1890, mas logo retornou ao legislativo federal.
Os dois começaram a se enfrentar em meio à crise política de 1894, quando caiu o governo de José Calazans, o primeiro presidente constitucionalmente eleito de Sergipe. Olímpio ficou ao lado dos governistas, conhecidos como “cabaús”, que se refugiaram na região dos engenhos de Rosário do Catete. Fausto se aliou aos “pebas”, apoiadores de Manuel Valadão, que assumiu o governo. Esta divisão política chegou a ter uma trégua em 1899, quando Olímpio faz um acordo com o então presidente Martinho Garcez, ligado aos “pebas”, e consegue se eleger para o Executivo do estado. Com o andamento do governo Olímpio, a trégua acaba e Fausto assume a frente da oposição.
“Sua posição ideológica era, de saída, uma motivação política. Fundador do Partido Progressista, Fausto Cardoso não aceitou a adesão de Olímpio Campos à República, muito menos o seu aproveitamento no governo de Felisbelo Freire. A reação faustista pode ser medida nos discursos pronunciados na Câmara Federal, especialmente o da Sessão de 15 de julho de 1902, no qual resume as suas denúncias contra Olímpio Campos, secundadas por nove artigos de autoria de Gumercindo Bessa. Considerando que, naquele tempo, governava Sergipe o padre Olímpio Campos, as denúncias repercutiram dentro e fora do Estado, e mesmo com a intenção de encerrar o assunto, a ferida aberta jamais cicatrizou”, escreveu Luiz Antônio Barreto, no dia 27 de agosto de 2004, em seu blog no Portal Infonet.
Em 1906, o embate entre os grupos atingiu o auge. No começo do ano, Fausto funda o Partido Progressista e começa a articular uma revolta para derrubar o governo de Guilherme Campos, irmão de Olímpio. Em 10 de agosto, uma tropa de revoltosos invade o Palácio do Governo e assume o poder, entregando a chefia do Executivo ao então presidente do Poder Judiciário. Guilherme renuncia, mas denuncia publicamente que sofreu um golpe e recorre ao presidente da República, Rodrigues Alves, que decreta intervenção federal em Sergipe.
No dia 27, tropas do Exército são enviadas de Salvador para retomar o controle do palácio. Em meio ao choque com os rebeldes, Fausto Cardoso leva um tiro de fuzil. Conta-se que, ao ser socorrido, ele teria pedido água e dito antes de morrer: “Bebo a alma de Sergipe. Morro, mas a vitória é nossa!”. Meses depois, o então senador Olímpio Campos morre atacado a tiros e facadas pelos parentes de Fausto, em plena Praça XV, no centro do Rio. Os dois fatos causaram enorme comoção em todo o estado, ganharam repercussão nacional e acirraram ainda mais a rixa entre “olimpistas” e “faustistas”. Ela foi desaparecendo com o tempo, mas entrou para a história como “A Tragédia de Sergipe”.
Fonte: ASCOM/Unit
com informações da Prefeitura de Aracaju, da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV) e do Palácio-Museu Olímpio Campos